A palestra "Compras sob pressão", na Arena Procurement 360, trouxe um case prático de liderança em um time de compras de logística de uma multinacional de alimentos (a Nestlé foi citada como contexto da apresentação), com gestão anual de R$ 1,67 bilhão em spend. O ponto de partida foi uma provocação: "Quantas vezes você pediu para o seu time se adaptar a uma prioridade? [...] quantas vezes nós como líderes mudamos juntos?"
Um time 100% novo em 18 meses
A apresentação revelou que, em 18 meses de gestão, 100% da equipe foi trocada ou modificada — reflexo de um mercado de compras "muito aquecido", em que profissionais buscam novos desafios. Em vez de tratar isso como um problema, a proposta foi construir um "alicerce" comum: contexto, treinamento e autonomia antes de cobrar performance.
O gatilho: uma tabela de frete mínimo
O case central girou em torno de uma tabela de frete mínimo (chamada de ITT no setor de logística), discutida desde 2018 mas nunca implementada de fato — até que a regra passou a valer com prazo curto: "Em 30 dias você precisa subir e respeitar a tabela de frete mínima. Se não, multa, bloqueio."
O impacto financeiro projetado era de R$ 60 milhões ao ano, dos quais R$ 36 milhões já eram considerados irreversíveis. Restavam R$ 24 milhões para a equipe tentar mitigar — em um mercado de transporte descrito como "extremamente saturado".
Resultado: de R$ 60 milhões para quase zero
Segundo o relato, a primeira onda de negociação, em 45 dias, reduziu o impacto de R$ 60 milhões para R$ 47 milhões — uma captura de R$ 13 milhões, cerca de 54% da meta. Numa segunda onda, o time conseguiu zerar o impacto, ficando até abaixo da referência de R$ 36 milhões.
O que fica para quem lidera equipes técnicas
Para além dos números, os pontos levantados têm aplicação direta em times de tecnologia e produto:
- Dê contexto antes de cobrar resultado: "treine a base" antes de exigir autonomia.
- Separe erro de culpa: "não adianta encontrar o erro e apontar o culpado. Corrija a rota, siga em frente."
- Segurança psicológica como pré-requisito de velocidade: "se nós damos a capacidade da pessoa tomar a decisão, nós precisamos segurar a mão dela quando as coisas não dão certo."
- Accountability é individual, mas o backup é coletivo: o objetivo é que, se 100% do time mudar de novo, "a pessoa do lado tem a capacidade de cuidar".
Em resposta a uma pergunta da plateia sobre a reforma tributária, a apresentação reconheceu que o tema trará novos desafios até 2033, mas destacou que uma estrutura organizacional robusta ajuda a antecipar esse tipo de choque regulatório — um alerta relevante para quem constrói sistemas de compras e logística que precisarão se adaptar a mudanças fiscais nos próximos anos.
A frase de fechamento resume o espírito da palestra: "Liderar em transformação não é ter todas as respostas, é construir um time capaz de entregá-las."

