Geopolítica empurra sourcing de tecnologia para trocar eficiência de custo por resiliência, diz Gartner
Na Gartner Procurement Conference 2026, analista descreveu acesso a tecnologia como algo cada vez mais condicionado a sanções, controles de exportação e disputas comerciais, não apenas ao mercado.
Publicado em · 5 min de leitura
Este artigo foi escrito por Marina Queiroz Avelar. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.
Quando o custo deixou de ser o único critério
Na Gartner Procurement Conference 2026, realizada em San Diego no início de setembro, o analista Yanni Karalis, managing vice president da consultoria, apresentou um argumento que incomoda quem foi treinado a otimizar custo total de aquisição acima de tudo: em tecnologia, isso deixou de bastar.
Segundo ele, guerras e disputas comerciais ao redor do mundo estão reescrevendo as regras de como empresas compram software, hardware e serviços de nuvem. O ponto central, relatado pelo SupplyChainBrain, é que o acesso a provedores de tecnologia que antes era puramente uma questão de mercado agora depende de decisões de governo.
O acesso à tecnologia está se tornando condicional. Não era algo em que estávamos pensando. Agora depende da geopolítica e da segurança nacional, não apenas das forças de mercado.
Tech access is becoming conditional. It's not something we were thinking about. [Now it] depends on geopolitics and national security, not just market forces.Yanni Karalis, managing vice president na Gartner
Para quem lidera supply chain e procurement no Brasil, isso não é um problema distante. Boa parte da infraestrutura crítica de operações, do ERP ao WMS, passando por plataformas de nuvem, roda sobre provedores americanos ou chineses sujeitos a controles de exportação, licenciamento e sanções que mudam com a política externa de outro país.
Três riscos que o CPO não controla mais só com contrato
Karalis organizou o problema em três frentes, cada uma com um risco estrutural e uma mudança de postura recomendada. Nenhuma das três se resolve apenas com cláusula contratual mais detalhada, segundo ele: contratos deixaram de ser suficientes para mitigar risco de controle de exportação ou restrição governamental.
| Problema | Por que o contrato não resolve | Mudança recomendada |
|---|---|---|
| Acesso condicional a tecnologia americana (export controls, licenciamento, sanções) | Restrição vem de lei, não de inadimplência do fornecedor | Manter alternativas pré-qualificadas e portabilidade de dados prontas para ativar |
| Concentração em poucos fornecedores de TI (vendor lock-in) | Dependência estrutural de um ou dois provedores de nuvem | Migrar para ecossistemas multi-vendor e multi-região, com interfaces padronizadas |
| Inflação de tempo e custo nos ciclos de aquisição | Maior escrutínio regulatório atrasa aprovação e eleva custo de compliance | Projetar para resiliência, não para eficiência pura |
O segundo ponto é o que mais contraria décadas de boa prática de procurement. Consolidar fornecedores em número reduzido ainda faz sentido do ponto de vista financeiro e de governança, admite Karalis. Mas, para tecnologia crítica, a recomendação agora é distribuir o risco entre regiões e provedores, "mesmo que isso não faça sentido do ponto de vista financeiro e de governança", nas palavras dele.
Soberania de dados: a pergunta que ninguém quer responder
O terceiro eixo da palestra foi soberania de dados, o conjunto de regras sobre onde dados precisam ser armazenados e processados, e quem tem autoridade legal sobre eles. Karalis foi direto ao afirmar que a confiança nesse arranjo está quebrada.
A confiança está fundamentalmente quebrada. Quem vai proteger a soberania dos seus dados? A má notícia é que ninguém vai.
Trust is fundamentally broken. Who will protect your data sovereignty? The bad news is, no one will.Yanni Karalis, managing vice president na Gartner
Para uma empresa brasileira operando sob a LGPD, isso soma uma camada extra de complexidade: não basta estar em conformidade com a lei local se o provedor de nuvem contratado está sujeito a uma ordem judicial ou sanção de outro país que pode obrigar a entrega ou o bloqueio desses mesmos dados. Karalis resumiu o erro comum: achar que provedores globais operam acima das fronteiras políticas. "Propriedade e obrigações legais agora pesam fortemente sobre o sourcing", disse ele, segundo o relato da SupplyChainBrain.
Na prática, isso significa que a due diligence de um fornecedor de tecnologia crítica precisa incluir hoje a nacionalidade da empresa controladora, a jurisdição onde os dados fisicamente residem e o histórico de exposição daquele provedor a sanções ou disputas comerciais, não só o preço e o nível de serviço contratado.
O trade-off que o CFO não vai gostar de ouvir
A parte mais difícil de vender internamente é financeira. Karalis foi claro em dizer que não existe caminho indolor: diversificar fornecedores de tecnologia em múltiplas regiões custa mais caro do que consolidar em um ou dois grandes provedores, e isso vai contra o instinto de qualquer CFO que mede sucesso de procurement em desconto negociado.
O recado dele para a plateia de profissionais de compras foi que esse argumento de resiliência precisa ser levado ao CFO de forma proativa, antes que um evento geopolítico force a decisão em condição de crise. Como ele resumiu, a conversa que importa aqui não é sobre ganhar 5% de desconto: é sobre manter a continuidade do negócio quando o acesso a um fornecedor simplesmente deixa de existir por decisão de outro governo.
Isso exige, segundo Karalis, o que ele chamou de "disciplina arquitetural": interfaces padronizadas, interoperabilidade entre plataformas e segmentação de cargas de trabalho, para que trocar de provedor não signifique reconstruir a operação do zero.
O que decidir, e com qual risco
Para liderança de supply chain e procurement, a palestra traduz-se em uma lista de perguntas que valem mais do que um RFP padrão na próxima renovação de contrato de tecnologia crítica:
- Concentração: qual fração da infraestrutura de missão crítica (ERP, nuvem, plataformas de P2P) está hoje em um único provedor ou uma única jurisdição?
- Portabilidade: se esse provedor ficar inacessível por sanção ou controle de exportação, quanto tempo leva para migrar os dados e a operação para uma alternativa já qualificada?
- Exit strategy: existe no contrato atual uma cláusula de saída executável, com orçamento já alocado e responsáveis definidos, ou essa decisão seria tomada sob pressão?
- Soberania de dados: a jurisdição legal do provedor contratado é compatível com a exigência regulatória brasileira e com o risco de exposição a leis extraterritoriais de outros países?
Karalis terminou a apresentação sem otimismo fácil: "Prometo a vocês que já há muita disrupção em curso, e mais disrupção está por vir", disse ele à plateia de profissionais de procurement. Para quem decide onde a empresa terceiriza tecnologia, o recado da conferência é que a próxima renegociação de contrato de nuvem ou software crítico não pode mais ser tratada como decisão puramente de custo: é decisão de risco geopolítico, e o preço de ignorá-la aparece na hora errada.
Fonte: supplychainbrain.com
Marina Queiroz Avelar acompanha decisões de sourcing e gestão de categorias. Em “Caso de Compras”, mostra como empresas estruturam concorrências, negociam custo total e desenvolvem fornecedores, com números, escolhas e limites de cada caso.
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