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Um sistema de compras de 1998 resolveu o problema que hoje trava a aprovação de fornecedores por IA

Jon Hansen descreve como um projeto de 1998 para o Departamento de Defesa Nacional do Canadá evitava o que a consultora Tiffany Masson chamou de approval creep: a aprovação de fornecedor que nunca é revista enquanto o escopo muda.

Marina Queiroz AvelarColunista

Publicado em · 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Marina Queiroz Avelar. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O problema que Tiffany Masson nomeou

Na semana passada, a psicóloga e consultora Tiffany Masson publicou no LinkedIn um texto que dá nome a uma dor conhecida de quem trabalha com compras: o approval creep. Um fornecedor é aprovado uma vez, com um escopo definido. Depois, ele muda: ganha novas integrações, novos casos de uso, novos dados. A aprovação original não acompanha.

O comentarista Jon W. Hansen, FCIPS, reproduz a formulação de Masson no texto publicado no Procurement Insights em 3 de outubro de 2026 (fonte deste artigo). Segundo ele, é assim que se chega a uma situação em que a quadringentésima transação segue rodando sob a autoridade concedida no primeiro dia.

A ação 4.000 ainda está rodando com a autoridade do primeiro dia.

action 4,000 is still running on day-one authorityTiffany Masson, Psy.D.

Masson propõe três perguntas para toda renovação de contrato ou de acesso:

  • O que mudou desde que isso foi aprovado?
  • Quem reavalia o escopo no momento da renovação?
  • O caso de uso de hoje passaria pela revisão original?

Hansen concorda que essas perguntas são necessárias, mas aponta um limite: toda renovação é só uma fotografia mais recente, não um tipo diferente de controle. Ela fecha a lacuna no dia da revisão, e a lacuna volta a se abrir no dia seguinte. Entre uma renovação e outra, o sistema continua agindo sob uma autorização que ninguém checou contra o que ele está realmente fazendo agora.

A decisão: um sistema de 1998 que recalculava a confiança a cada transação

Para argumentar que existe alternativa, Hansen recorre à própria experiência. Em 1998, com financiamento do programa canadense de Pesquisa Científica e Desenvolvimento Experimental (SR&ED), ele desenvolveu para o Departamento de Defesa Nacional do Canadá um sistema em que, segundo ele, o approval creep não tinha onde se instalar, porque a aprovação nunca foi um evento único.

O mecanismo central, que Hansen chama de Infinity Loopback, reconstruía a posição de cada fornecedor a cada transação, cobrindo todo o ciclo de vida do pedido, não apenas a compra:

Fase do pedidoO que era medidoQuem verificava
Antes do pedidoHistórico de entrega, qualidade e taxa de fechamento de chamados de serviço, mais variáveis em tempo real (preço cotado, distância, horário)O próprio sistema, comparando todos os fornecedores pelos mesmos parâmetros
Na entregaCumprimento do prazoUm terceiro, não o próprio fornecedor
Depois da entregaQualidade do produto, devoluções, peças com defeito de fábrica e envio de peça erradaDados pós-entrega alimentando o loop seguinte

Cada resultado dessas três fases realimentava a posição do fornecedor para o próximo pedido. Nada do que um fornecedor fazia depois da primeira compra ficava invisível ao sistema, então não havia intervalo entre a aprovação e a realidade para o creep crescer.

Um detalhe no desenho evita injustiça: um chamado de serviço que não se resolvia só pesava contra o fornecedor quando a causa vinha dele (peça errada, defeito de qualidade). Se o técnico tivesse diagnosticado errado o problema, o fornecedor não era penalizado, porque sua responsabilidade era entregar a peça certa, no lugar certo, na hora certa.

Quem decidia o peso era o comprador, não o algoritmo

Os algoritmos não escolhiam o que importava mais. Hansen descreve que cada comprador podia alterar os pesos conforme a prioridade do pedido: se entrega era o critério principal para uma necessidade específica, os fornecedores se reordenavam de um jeito; se custo fosse a prioridade, de outro. Uma função de supervisão, que ele chamava de train-yard manager, acompanhava o funcionamento geral do sistema.

Ou seja: a evidência se acumulava de forma contínua e automática, mas o critério de julgamento dessa evidência continuava sendo uma decisão humana, revista pedido a pedido.

O resultado contraintuitivo: o mais barato podia ficar em último

A consequência prática, segundo Hansen, surpreendia quem via o sistema pela primeira vez: o fornecedor mais barato podia ranquear em último lugar. Uma vez que histórico de entrega e de qualidade entravam na conta junto com o preço cotado naquele instante, preço baixo isolado deixava de vencer a disputa.

Isso inverte a lógica mais comum em processos de homologação de fornecedor, em que o preço da cotação pesa mais do que o comportamento real ao longo do contrato. No desenho de 1998, o comportamento real era justamente o que definia a posição seguinte.

O que fica para quem avalia IA e fornecedores hoje

Hansen conecta o caso de 1998 ao presente: modelos de IA, suas integrações e seu comportamento operacional também mudam entre uma revisão e outra, exatamente como o escopo de um fornecedor muda entre renovações. Para ele, a autoridade deveria se acumular a partir de evidência, não se erodir a partir de uma assinatura antiga.

Governança acontece todos os dias depois da assinatura.

Governance is every day after the signatureTiffany Masson, Psy.D.

A diferença, resume Hansen, está em uma frase: no exemplo de Masson, a ação 4.000 roda com a autoridade do primeiro dia; no sistema de 1998, a ação 4.000 rodava sobre a evidência acumulada das 3.999 anteriores, ponderada pelas prioridades que o comprador definiu. A pergunta que resta, segundo ele, é se a assinatura é a última evidência que o sistema olha, ou a primeira.

O que dá para levar para a prática

O modelo descrito por Hansen exige instrumentação pesada: captura de dado em cada etapa do pedido e verificação por terceiro na entrega, algo mais viável em compras recorrentes e de alto volume do que em aquisições pontuais. Para times de compras e de governança de IA, o recorte prático que o caso deixa:

  • Trate aprovação e renovação como eventos que fecham uma lacuna temporária, não como controle permanente.
  • Separe o que é evidência histórica do que é condição do pedido no momento, e pese as duas.
  • Deixe explícito quem define a prioridade (custo, prazo, qualidade) a cada reavaliação, em vez de deixar isso implícito no processo.
  • Audite a causa de uma falha antes de penalizar o fornecedor por ela.

Hansen cita ainda, como registro datado da própria trajetória do método, uma resposta de uma palestra de 2005 sobre por que o fornecedor mais barato podia perder a disputa, um post de 18 de março de 2008 descrevendo a abordagem com sua origem no SR&ED, e uma aplicação mais recente, de 6 de setembro de 2026, do mesmo método de rastreamento a um caso de tráfego. O fio entre os três é o mesmo: autoridade que se prova a cada transação, não autoridade que se presume depois de concedida uma vez.

Fonte: procureinsights.com

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Sobre o autorMarina Queiroz AvelarColunista

Marina Queiroz Avelar acompanha decisões de sourcing e gestão de categorias. Em “Caso de Compras”, mostra como empresas estruturam concorrências, negociam custo total e desenvolvem fornecedores, com números, escolhas e limites de cada caso.

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