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Canal do Panamá estende reserva de longo prazo às eclusas Panamax pela primeira vez

A medida mira reduzir a dependência do leilão diário, que já pagou US$ 5,3 milhões por uma única passagem.

Rodrigo Tavares LinsColunista

Publicado em · 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Rodrigo Tavares Lins. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

A Autoridade do Canal do Panamá (ACP) abre a partir de novembro leilões para reservar com antecedência vagas de trânsito também nas eclusas Panamax, menores, depois de um ano só cobrindo as Neo-Panamax. A medida mira reduzir a dependência do leilão diário, que já pagou US$ 5,3 milhões por uma única passagem.

O gargalo

A ACP vem adotando medidas para garantir a sustentabilidade das operações diante de condições climáticas que afetam a disponibilidade de água para operar as eclusas, incluindo cortes nas vagas diárias de trânsito ligados ao fenômeno El Niño, segundo a própria autoridade. Quem dependia de passagem garantida passou a correr risco real de fila, atraso de escala e perda de janela de porto do outro lado.

Essa escassez empurrou parte da demanda para o sistema diário de reservas e leilões da ACP, que opera por lance e não garante vaga com antecedência. O resultado foram preços recordes: segundo o Seatrade Maritime, um navio de GLP pagou US$ 5,3 milhões em 1º de setembro de 2026 para furar a fila, o maior valor já pago nesse sistema. Em agosto, o porta-contêineres Seaspan Benefactor, de 10.100 TEU, pagou US$ 4,6 milhões, e em abril um navio gaseiro, o Gas Virgo, pagou US$ 4 milhões.

Esses valores mostram o tamanho do problema para quem roda linha regular pelo canal: sem reserva garantida, o custo de uma única passagem pode superar o de vários dias de afretamento do navio. É esse o gargalo que a ACP tenta resolver ampliando o programa de reserva de longo prazo.

A solução

A ACP lançou em setembro de 2025 o Long-Term Slot Allocation Programme (LoTSA), que permite a clientes reservar com meses de antecedência vagas de trânsito nas eclusas Neo-Panamax, as maiores, construídas na expansão do canal e usadas por navios de até cerca de 14 mil TEU. A nova fase, chamada LoTSA 3.0, cobre o período de 3 de janeiro a 3 de abril de 2027, a estação seca, quando a disponibilidade de água é mais crítica.

A novidade anunciada em 6 de outubro de 2026 é que, pela primeira vez, a ACP estende esse modelo também às eclusas Panamax, menores e mais antigas, num programa piloto. O mecanismo é o mesmo: leilão de lances fechados (sealed-bid), com os mesmos critérios de alocação, seleção e desempate já usados no programa Neo-Panamax, segundo a ACP.

O calendário dos leilões já está marcado:

  • Leilão LoTSA Neo-Panamax: 17 de novembro de 2026
  • Leilão piloto LoTSA Panamax: 24 de novembro de 2026

O programa mantém os pacotes segmentados que já existiam no LoTSA, permitindo que cada cliente escolha entre certeza garantida ou mais flexibilidade:

  • FixContainer e FlexContainer, para linhas de contêiner
  • FixGas, FlexGas e FlexGas+, para navios gaseiros
  • FlexSlot+, pacote de flexibilidade mais ampla

O número

A diferença de escala entre as duas eclusas aparece nos números divulgados pela ACP e mostra por que a Panamax, mesmo menor, ainda pesa na operação:

ProgramaPacotes/vagasBerços totaisNorte / SulRitmo
LoTSA Neo-Panamax36 slots270 berços165 norte / 105 sul3 berços/dia
LoTSA Panamax (piloto)51 pacotes288 slots147 norte / 141 sul3 slots/dia

O restante da capacidade diária segue sendo oferecido pelo sistema padrão de Reservas e Leilões, o mesmo em que os preços recordes de GLP e contêiner foram pagos este ano. Ou seja, a reserva de longo prazo não substitui o leilão diário, ela reduz o volume de navios que precisam disputar ali.

Impacto regional

O Canal do Panamá concentra o tráfego Ásia, costa leste e golfo dos Estados Unidos, além de boa parte do movimento de GLP e GNL que sai do golfo americano rumo ao Pacífico. É nessa rota que o aperto de 2026 mais doeu, como mostram os três leilões recordes citados pelo Seatrade Maritime, todos com navios gaseiros ou porta-contêineres de grande porte.

Para operações brasileiras, o efeito chega indireto mas real: fretamento, escala e preço de bunker no canal entram na precificação de frete marítimo em rotas que conectam a América do Sul a mercados asiáticos via transbordo em portos americanos, e qualquer disputa por vaga ali pressiona para cima o custo de capacidade em toda a cadeia. Quem embarca GLP, químicos ou carga em contêiner com conexão por esse corredor sente o reflexo mesmo sem passar diretamente pelas eclusas.

O que replicar

Para quem planeja logística marítima com exposição ao canal, o movimento da ACP sugere um caminho que vale avaliar independentemente do porte da operação:

  1. Mapear, com meses de antecedência, quais janelas de embarque caem dentro do período de estação seca e avaliar se vale travar vaga via leilão de lance fechado em vez de arriscar o sistema diário.
  2. Comparar o custo do pacote fixo (FixContainer, FixGas) contra a exposição histórica do leilão diário, hoje já batendo a casa dos US$ 5 milhões por passagem em casos extremos.
  3. Para quem não consegue prever volume com tanta antecedência, os pacotes flexíveis (FlexGas+, FlexSlot+) funcionam como hedge intermediário, trocando parte da certeza por menor compromisso de capital.
  4. Acompanhar o resultado do piloto Panamax: se ele se mostrar eficaz em reduzir fila nas eclusas menores, é provável que a ACP amplie o número de pacotes nas próximas fases do LoTSA.

O ponto central é que o canal deixou de ser só uma passagem: virou um mercado de capacidade com leilão próprio, e empresas que tratam essa reserva como parte do planejamento de rede, e não como imprevisto de última hora, tendem a escapar dos valores recordes que o sistema diário vem registrando ao longo de 2026.

Fonte: Seatrade Maritime

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Sobre o autorRodrigo Tavares LinsColunista

Rodrigo Tavares Lins entra na operação de armazéns e centros de distribuição. Em “Operação Real”, examina layout, estoque, separação, produtividade e OTIF para revelar onde a logística ganha ou perde desempenho.

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