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Diesel instável nos EUA reacende alerta sobre contrato de frete fixo

Nos Estados Unidos, transportadoras que travaram preço antes da alta do diesel já operam no prejuízo. O episódio serve de alerta para quem negocia frete fixo sem cláusula de reajuste no Brasil.

Redação Portal do Supply ChainRedação

Publicado em · 7 min de leitura

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Diesel instável nos EUA reacende alerta sobre contrato de frete fixo
Diesel instável nos EUA reacende alerta sobre contrato de frete fixo

O preço do diesel nos Estados Unidos vem recuando, mas isso não aliviou o custo do frete, e esse descompasso já está cobrando a conta de transportadoras presas a contratos fechados antes da alta. É esse cenário, descrito pelo Supply Chain Dive em reportagem publicada em 7 de outubro de 2026, que serve de alerta para quem compra frete: contrato fixo sem cláusula de reajuste ou força maior vira passivo quando o insumo que sustenta a operação do fornecedor dispara.

O caso é americano, os números também são, mas a lógica contratual é universal: quem trava preço com um transportador assume, na prática, parte do risco de combustível dele. Se o contrato não prevê mecanismo de ajuste, esse risco vira prejuízo só do fornecedor até ele quebrar, atrasar entrega ou simplesmente não renovar.

O caso que expõe o problema

Cherri Harris, CEO da Swint Logistics Group, transportadora que atua nos Estados Unidos e Canadá, contou à NewsNation em 27 de setembro de 2026 que boa parte dos contratos da empresa foi assinada antes da disparada do diesel. Os clientes ofereceram algumas horas extras de trabalho por dia para ajudar a cobrir o aumento, mas ela foi direta sobre o limite dessa saída.

É uma ajuda, mas não é uma solução.

It is a help, but it is not a solution.Cherri Harris, CEO da Swint Logistics Group

A fala resume o risco que todo comprador de frete fixo corre quando a estrutura de custo do fornecedor muda e o contrato não acompanha: o transportador aguenta por um tempo, com margem cada vez mais apertada, até que a conta não feche mais.

Por que o diesel não segue o petróleo

O diesel nos Estados Unidos custava US$ 6,20 o galão em 5 de outubro, ante US$ 6,38 uma semana antes, segundo a Energy Information Administration (EIA). A queda, porém, não reflete o tamanho do problema estrutural: a CFO da Chevron, Eimear Bonner, disse em evento do Wall Street Journal em 22 de setembro que não espera alívio rápido nos preços de energia até o tráfego pelo Estreito de Hormuz ficar mais previsível e a capacidade de refino se recuperar.

Parte da dificuldade está no refino, não só no petróleo bruto. O indicador conhecido como crack spread 3-2-1 trata três barris de petróleo como insumo para dois de gasolina e um de diesel, o que explica por que liberar óleo bruto da Reserva Estratégica dos EUA não resolve sozinho: o produto ainda precisa passar por refinarias, que estão sob pressão desde ataques ucranianos a refinarias russas (que o presidente Trump pediu publicamente para cessar, pelo impacto nos preços globais de combustível), mesmo com exportações de produtos refinados do Golfo dos EUA se recuperando mais rápido do que o esperado, segundo o Wall Street Journal.

Frete mais caro e mais escasso ao mesmo tempo

Enquanto o diesel oscila, o mercado de frete nos EUA deu mais poder de precificação às transportadoras. Na semana iniciada em 13 de setembro, as tarifas spot nacionais ficaram bem acima da média sazonal de nove anos, segundo dados da DAT citados pelo Trucking Dive: 20% acima para dry van, 28% para refrigerados e 25% para flatbed.

Na comparação semanal mais recente, o movimento foi misto: a tarifa de dry van caiu 3 centavos, para US$ 2,17 por milha; a de refrigerados subiu 2 centavos, para US$ 2,73; e a de flatbed caiu 2 centavos na média nacional, para US$ 2,60, mas subiu 6 centavos nos estados que a DAT considera termômetro desse mercado. As cargas postadas na plataforma DAT One subiram 16%, para 2,9 milhões na semana de 13 de setembro, ritmo bem maior que o aumento de 8% em anúncios de caminhões disponíveis, o que empurra a relação carga-caminhão para cima.

O mercado também está investindo: pedidos de reboques somaram 24.144 unidades em agosto, alta de 43% sobre julho, segundo dados da FTR citados pelo Trucking Dive. Transportadora que investe em equipamento tende a repassar custo fixo mais alto, e não a aceitar preço antigo.

Ruído político turbina a incerteza

Chamados para uma paralisação de caminhoneiros em 1º de outubro de 2026 adicionaram barulho a um mercado já apertado, embora os principais grupos do setor digam não estar envolvidos; um porta-voz chamou a mobilização de "conversa de redes sociais, até o momento". Estados já reagem à alta do diesel: o governador Kelly Armstrong, de Dakota do Norte, declarou emergência em 29 de setembro e liberou temporariamente o uso de diesel tingido (normalmente restrito a uso agrícola, com imposto menor) em rodovias públicas para operações ligadas ao agronegócio, com economia estimada de 19 centavos por galão em imposto estadual até 30 de novembro.

O Texas, sob o governador Greg Abbott, tomou medida semelhante. Em ambos os casos, o imposto federal sobre diesel continua valendo.

O que muda para quem compra frete

A combinação de diesel caro, frete mais firme e transportadores pressionados é exatamente o cenário em que cláusulas mal desenhadas custam caro na renovação de contrato. Bob Costello, economista-chefe da American Trucking Associations, disse ao Washington Post que sobretaxas de combustível costumam ser ajustadas semanalmente, atreladas ao preço de diesel divulgado pela EIA: se o combustível sobe no meio da semana, o transportador só recupera o custo no próximo ajuste, e o comprador só sente o reajuste quando ele chega na fatura de frete.

Isso aponta para três pontos de revisão concretos em qualquer negociação de frete, aqui ou nos Estados Unidos:

  • Cláusula de preço flutuante (fuel surcharge): definir com clareza o índice de referência, a periodicidade do reajuste e o teto ou piso, em vez de deixar o repasse a critério do transportador.
  • Cláusula de força maior: prever expressamente disrupção de insumo (combustível, pedágio, câmbio) como gatilho de renegociação, não só eventos como greve ou desastre natural.
  • Janela de revisão contratual: aproveitar o ciclo de renovação anual, citado pela própria reportagem como momento em que embarcadores americanos já revisam custo e capacidade, para reabrir cláusulas travadas há mais de um ciclo de preço.

Um exemplo de como isso aparece do lado financeiro: na Wayfair, finance e operações avaliam juntos o custo e a precificação de frete pela CastleGate, plataforma de fulfillment da empresa, segundo a CFO Kate Gulliver, em painel do CFO Leadership Council de junho de 2026. Ela citou auditoria de frete como um dos usos de IA mais diretos no setor, dado o volume de transações de transporte que a empresa processa, fala anterior à disparada atual do diesel, mas que mostra onde a função de compras já cruza dados com finanças para captar esse tipo de variação antes que ela vire problema na renovação.

O que ainda está em aberto

A Casa Branca avalia banir exportações de diesel dos EUA, algo que Trump disse em 27 de setembro estar "pensando muito seriamente" em fazer. Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, disse à Yahoo Finance que a medida poderia baixar o preço doméstico, mas forçaria refinarias do Golfo a cortar processamento de petróleo bruto quando o estoque encher, reduzindo também a produção de gasolina. Em paralelo, os EUA ofereceram, em 27 de setembro, emprestar até 40 milhões de barris de petróleo bruto da Reserva Estratégica, embora a Reuters tenha observado que retiradas de rotina ficam restritas quando o estoque cai abaixo de 252,4 milhões de barris.

Com o inverno no hemisfério norte se aproximando, a EIA já projeta que o estoque baixo de destilados contribua para contas de aquecimento mais altas no nordeste dos EUA, já que diesel e óleo de aquecimento são combustíveis próximos. Nada disso tem data de resolução definida, e é esse grau de incerteza, não o preço do dia, que justifica revisar agora a cláusula de reajuste e de força maior em qualquer contrato de frete fechado por mais de um trimestre.

Fonte: Supply Chain Dive

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