Live University · Portal do Supply ChainLive University · Portal do Supply Chain

Reforma tributária muda comparação de propostas e exige nova matriz de custos em Compras

Simulações apresentadas no Fórum de Compras & Sourcing 2026 mostram que, com CBS e IBS, preço nominal igual pode esconder custos efetivos bem diferentes entre fornecedores.

Beatriz Nogueira PradoColunista

Publicado em · 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Beatriz Nogueira Prado. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

A Reforma Tributária deixou de ser só pauta de Fiscal e Contábil: ela está mudando o critério com que Compras compara propostas de fornecedores. Simulações apresentadas pela Nimbi durante o Fórum de Compras & Sourcing 2026, em palestra conduzida por Kamylla Vaz e Augusto Toledo em outubro de 2026, mostram que duas ofertas com preço nominal parecido podem ter custo efetivo bem diferente depois de considerados créditos tributários e regime fiscal do fornecedor.

A pergunta que motivou a apresentação é direta: diante de duas propostas com mesma especificação, prazo e qualidade, a de menor preço é sempre a de menor custo? Em três pontos, o que muda para quem compra:

  • Preço apresentado deixa de ser a única variável comparável: tributo incidente, crédito aproveitável e regime do fornecedor (Simples Nacional ou regime regular) entram na mesma análise.
  • Contratos de longa duração podem atravessar diferentes etapas da transição entre 2027 e 2033, o que muda a composição tributária da mesma compra ao longo do tempo.
  • A diferença entre desembolso e custo econômico passa a justificar revisão da matriz de categorias e dos critérios de scoring usados hoje no SRM.

A transição que vai até 2033

A substituição gradual dos tributos atuais pela CBS e pelo IBS segue, segundo a apresentação da Nimbi, até 2033. Para Compras, o desafio não é dominar as siglas novas, mas entender como a composição tributária de cada operação afeta preço, crédito e custo efetivo de uma compra específica.

O comprador não precisa assumir o papel da área Fiscal, mas precisa entender que o preço da proposta passa a contar apenas uma parte da história. Em determinadas situações, duas ofertas aparentemente semelhantes podem ter impactos econômicos diferentes quando consideramos a tributação e os créditos associados à operação.

Kamylla Vaz, Gerente Comercial da Nimbi

A transição não é um evento único: é uma rampa de vários anos, com proporções diferentes de tributos antigos e novos a cada etapa. Isso significa que uma mesma linha de compra, cotada hoje para um contrato de três ou cinco anos, pode ser tributada de forma distinta no início e no fim da vigência.

Preço não é custo: o exemplo que muda a conta

A Nimbi demonstrou, em parceria com a Busca Legal, uma ferramenta que parte da classificação do item ou serviço, aplica as regras tributárias correspondentes e projeta cenários de preço equivalente entre 2027 e 2033. Num cenário apresentado, uma compra com base líquida de R$ 100 teve preço equivalente de R$ 135,71 em 2027, caindo para R$ 127 em 2033, à medida que muda a composição dos tributos ao longo da transição. No cenário de 2033, R$ 27 desse valor correspondem a IBS e CBS, potencialmente recuperáveis nas condições aplicáveis ao comprador.

Nem todo tributo incidente vira crédito, e esse é o ponto que mais interessa a quem negocia. Em outro exemplo apresentado na palestra, uma operação com produto sujeito ao Imposto Seletivo mostrou R$ 27 em IBS e CBS com potencial de crédito, mas R$ 10 referentes ao próprio Imposto Seletivo sem geração de crédito. A diferença entre imposto incidente e imposto recuperável é exatamente o que separa preço de custo comparável.

O caso que inverte o ranking de fornecedores

O exemplo mais direto para quem faz cotação comparativa envolveu dois fornecedores em regimes tributários diferentes. Um estava no Simples Nacional, com preço de R$ 100; outro, no regime regular de IBS e CBS, ofertava R$ 105. Olhando só o preço nominal, a oferta do Simples Nacional venceria a cotação.

Quando os créditos potenciais entraram na análise, o custo comparável simplificado inverteu a leitura:

FornecedorPreço nominalCusto comparável simplificado
Regime regular (IBS/CBS)R$ 105,00R$ 82,68
Simples NacionalR$ 100,00R$ 95,68

O fornecedor com preço nominal mais alto terminou com custo comparável mais baixo, uma diferença de mais de R$ 13 por R$ 100 de base, só por efeito de créditos tributários. A Nimbi destaca que esse modelo simplificado não substitui a decisão final, que ainda envolve frete, prazo, qualidade, risco, SLA e custo financeiro.

O que muda na rotina de quem compra

Para quem monta matriz de categorias e critérios de SRM, a recomendação que se extrai do material apresentado é tratar a informação tributária como uma camada adicional de dado de fornecedor, ao lado de SLA, qualidade e risco de suprimento. Isso implica revisar pelo menos três pontos da rotina de compras:

  1. Cadastro de fornecedor: passar a registrar o regime tributário (Simples Nacional, regime regular, enquadramentos especiais) como campo estruturado, não só informação de nota fiscal.
  2. Modelo de cotação: pedir, além do preço, a composição tributária estimada da proposta, para permitir o cálculo de custo comparável antes da decisão.
  3. Cláusula contratual: prever revisão de preço atrelada às mudanças de composição tributária ao longo da transição até 2033, especialmente em contratos de duração superior a um ano.

"Quando colocamos os fornecedores na mesma base de comparação, a tributação deixa de ser apenas uma informação acessória. Ela passa a interferir diretamente na forma como Compras interpreta uma proposta", diz Augusto Toledo, da área de Produto da Nimbi. Segundo ele, a tecnologia serve para transformar uma regra tributária complexa em informação usável na negociação, não para substituir o julgamento do comprador.

O que ainda fica em aberto

A integração entre Compras, Fiscal, Tax e Contabilidade, hoje tratada por áreas separadas na maioria das empresas, é apontada como condição para que essa análise funcione na prática, mas o material não detalha modelo de governança nem SLA entre essas áreas. Também não há, na apresentação, indicação de quais ERPs ou sistemas de cotação já incorporam esse tipo de cálculo de forma nativa, nem estimativa de quanto tempo leva para um time de Compras treinar essa nova leitura de proposta.

Para Carolina Cabral, CEO da Nimbi, o ponto central é que Compras está deixando de operar só com preço, prazo e condição comercial: cada vez mais, a decisão relevante exige cruzar camadas diferentes de informação, com a tecnologia organizando a complexidade sem tirar do comprador a palavra final.

O Boletim Pedido de Compra, publicado pelo portal, deve voltar ao tema nas próximas semanas à medida que mais categorias publicarem suas próprias simulações de transição tributária.

Fonte: Valor Econômico

Espaço de oferecimento disponível em Compras. — Oferecimento disponível para Compras
Sobre o autorBeatriz Nogueira PradoColunista

Beatriz Nogueira Prado conecta mercado, regulação e indicadores às decisões da cadeia. Editora de inteligência e autora de “Abertura do Dia”, destaca o que mudou, quem é afetado e qual ação merece prioridade.

Leia também

Mais de Beatriz Nogueira Prado

Boletim Portal do Supply Chain

Boletins do Supply Chain

Escolha a sua área e receba toda semana o que mudou, os casos reais e as tendências que importam para o seu trabalho, em poucos minutos de leitura. Com número, fonte e o que fazer a respeito.

Como você lê (opcional)