Live University · Portal do Supply ChainLive University · Portal do Supply Chain
Ao vivo23º Fórum de Compras & SourcingAcompanhe

Regulamento de estatal não pode guardar o valor estimado em sigilo até a adjudicação, segundo a Zênite

Consultoria Zênite argumenta que empresas públicas e sociedades de economia mista não podem deixar para revelar o orçamento sigiloso só depois de declarado o vencedor, sob pena de ferir o julgamento objetivo da licitação.

Marina Queiroz AvelarColunista

Publicado em · 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Marina Queiroz Avelar. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O que a Lei 13.303/2016 diz (e o que ela não diz)

A Lei das Estatais permite que empresas públicas e sociedades de economia mista mantenham sigiloso o valor estimado da contratação. É a regra do art. 34: o orçamento é sigiloso, salvo justificativa de publicidade na fase de preparação prevista no art. 51, I. O problema é que a lei não diz em que momento esse sigilo deve acabar.

Essa lacuna abre espaço para que cada estatal defina a regra no próprio regulamento interno e, subsidiariamente, no edital. Segundo o Blog Zênite, essa liberdade existe, mas não é ilimitada: a divulgação precisa respeitar o art. 56, IV, que manda desclassificar propostas acima do orçamento estimado "ressalvada a hipótese prevista no caput do art. 34". Ou seja, o sigilo não pode virar desculpa para julgar sem critério conhecido.

Por que o momento da divulgação importa pra quem conduz a licitação

Quem trabalha com licitação de estatal sabe que o valor estimado não é só uma referência de mercado: na prática, ele funciona como teto de aceitabilidade. Se uma proposta fica acima desse teto, ela é desclassificada. É aí que mora o risco jurídico apontado pela Zênite.

Em resumo: se o licitante não sabe qual é o limite, ele pode ser excluído do certame por um critério que desconhecia, e sem chance de ajustar o preço. Isso fere diretamente o princípio do julgamento objetivo, que exige que os critérios de seleção sejam conhecidos antes do julgamento, não depois dele.

A posição da Zênite: sigilo até o fim da fase de lances

Para a Consultoria Zênite, a solução mais recomendável é deixar o sigilo valer até o encerramento da fase de lances. Encerrada essa etapa, o valor estimado é aberto, e a negociação com o primeiro colocado (prevista no art. 57, § 1º da Lei 13.303/2016) passa a ocorrer com os dois lados sabendo qual é o teto aceitável.

Se o licitante detentor do menor preço não aceita reduzir sua proposta até o limite, a Lei autoriza negociar com os remanescentes, na ordem de classificação, até alguém topar o ajuste. Não havendo acordo com ninguém, a licitação é declarada fracassada. Todo esse fluxo só funciona de forma transparente se o valor estimado já estiver público quando a negociação começa.

O artigo cita o jurista Cesar A. Guimarães Pereira, que escreveu sobre o tema:

Esta é a regra geral. Porém, faculta-se à empresa estatal dar publicidade ao orçamento desde que justifique esta opção na fase de preparação prevista no art. 51, I, da Lei 13.303. Não havendo tal justificação, deve-se observar o sigilo do orçamento.

Cesar A. Guimarães Pereira, 2016, p. 343

E se a estatal quiser manter o sigilo durante a negociação com o 1º colocado?

Nem toda estatal quer abrir o orçamento logo no fim dos lances. Algumas preferem negociar sem revelar o teto, para tentar extrair mais desconto do licitante. A Zênite reconhece essa possibilidade, mas impõe uma condição: assim que a negociação com o autor da proposta mais vantajosa terminar, o valor estimado precisa ser divulgado imediatamente.

Isso porque, se a oferta final continuar acima do teto, o licitante tem direito a saber o motivo e a chance de reduzir o preço antes de ser desclassificado. Segundo o texto, "entendimento em sentido contrário permitiria que a proposta do autor da melhor proposta fosse desclassificada sem saber a razão determinante da sua exclusão", o que a Zênite considera incompatível com a legalidade do processo.

O artigo também traz a leitura de Marçal Justen Filho sobre o tema equivalente no RDC: para ele, o sigilo do orçamento deve terminar junto com o encerramento da fase de disputa, seja ela aberta, fechada ou combinada, justamente para não transformar a negociação num jogo de adivinhação.

Por que divulgar só depois do vencedor ou da adjudicação não se sustenta

A tabela abaixo resume os três momentos possíveis de levantamento do sigilo discutidos na fonte e o risco jurídico associado a cada um.

Momento da divulgaçãoO que acontece na práticaRisco apontado pela Zênite
Fim da fase de lancesNegociação com o 1º colocado já ocorre com teto conhecidoNenhum: é a solução recomendada
Fim da negociação com o vencedorSigilo preservado durante a barganha, aberto logo depoisAceitável, desde que a divulgação seja imediata
Declaração do vencedor ou adjudicaçãoCritério de aceitabilidade só aparece quando o certame já terminouOfende o julgamento objetivo e a transparência

A última linha é o ponto central da pauta: deixar a divulgação do orçamento para depois de declarado o vencedor, ou para o ato de adjudicação, significa que todo o julgamento de aceitabilidade das propostas aconteceu sem que os licitantes soubessem qual era o critério. Para a Zênite, essa opção "não se mostra compatível com os princípios do julgamento objetivo e da transparência".

O que muda no regulamento da sua estatal

Para quem redige ou revisa regulamento de licitações de empresa pública ou sociedade de economia mista, a recomendação prática da Zênite dá um roteiro objetivo:

  • Definir no regulamento (e repetir no edital) o momento exato em que o sigilo do orçamento termina, sem deixar a questão em aberto.
  • Preferir o encerramento da fase de lances como gatilho padrão para a divulgação, por ser o ponto que melhor concilia sigilo com julgamento objetivo.
  • Se a estatal optar por manter o sigilo também na negociação com o primeiro colocado, prever expressamente a divulgação imediata ao fim dessa negociação.
  • Garantir que, mesmo com proposta acima do teto, o licitante vencedor tenha a chance de ajustar o valor antes de ser desclassificado.
  • Assegurar que, em caso de recurso, os licitantes já tenham acesso ao valor estimado para poder exercer o contraditório.

O que fica em aberto, segundo a própria fonte, é que a Lei 13.303/2016 não resolve isso de forma expressa: a Zênite constrói o entendimento a partir dos princípios da lei e da doutrina, não de um dispositivo literal. Isso significa que cada estatal segue tendo margem para desenhar sua própria regra, desde que não comprometa o julgamento objetivo.

Fonte

ZÊNITE, Equipe Técnica. O regulamento de estatal pode prever a divulgação do valor estimado apenas após a declaração do vencedor ou a adjudicação? Quais as cautelas necessárias? Blog Zênite, 29 set. 2026. Disponível em: https://zenite.blog.br/o-regulamento-de-estatal-pode-prever-a-divulgacao-do-valor-estimado-apenas-apos-a-declaracao-do-vencedor-ou-a-adjudicacao-quais-cautelas-necessarias/.

Fonte: zenite.blog.br

Espaço de oferecimento disponível em Compras. — Oferecimento disponível para Compras
Sobre o autorMarina Queiroz AvelarColunista

Marina Queiroz Avelar é a repórter de casos reais de Compras. Ela parte dos cases apresentados no Fórum de Compras & Sourcing, na Maratona de Supply Chain, no Prêmio Inbrasc e na comunidade do instituto para reconstruir o problema, a decisão, a implementação e o resultado. Seu trabalho não é celebrar “cases de sucesso”, mas descobrir o mecanismo que gerou valor: negociação, strategic sourcing, TCO, should cost, SRM, contratos, P2P ou gestão de categorias. Assina o “Caso de Compras”, sempre terminando com uma pergunta prática: o que outra empresa pode copiar — e o que não pode?

Leia também

Mais de Marina Queiroz Avelar

Boletim Portal do Supply Chain

Boletins do Supply Chain

Escolha a sua área e receba toda semana o que mudou, os casos reais e as tendências que importam para o seu trabalho, em poucos minutos de leitura. Com número, fonte e o que fazer a respeito.

Como você lê (opcional)