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Saving que não vira valor: o método de negociação do Fórum de Compras & Sourcing

No 23º Fórum de Compras & Sourcing, uma palestra propôs trocar a lógica do desconto por uma matriz de variáveis, BATNA e ZOPA para capturar valor além do preço.

Marina Queiroz AvelarColunista

Publicado em · 5 min de leitura

Este artigo foi escrito por Marina Queiroz Avelar. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O problema: saving na planilha, valor que ficou de fora

No segundo dia do 23º Fórum de Compras & Sourcing, a palestra "O saving que não chega ao resultado: como transformar negociação em valor capturado" atacou um vício comum em compras: medir o sucesso de uma negociação só pela redução de preço. A cobertura do livesupplychain.com.br registrou o argumento central: tratar negociação como jogo de uma variável só (preço) deixa dinheiro e relacionamento na mesa, porque ignora o que cada lado realmente valoriza.

O ponto de partida é um conceito clássico de teoria de negociação, atribuído na palestra a William Ury, coautor do método difundido no livro "Como chegar ao sim" (Getting to Yes) e referência em cursos de negociação ligados a Harvard. A ideia: separar posição de interesse. Posição é o que a pessoa diz que quer; interesse é o problema real por trás disso, e normalmente há mais espaço de acordo no nível do interesse do que no da posição declarada.

Interesses por trás da posição: o atalho que faltava na mesa

O exemplo usado no palco foi direto ao ponto do comprador:

O comprador vira e fala assim, eu quero comprar mais. Mas por que você quer comprar mais? Porque eu quero reduzir o preço médio do que eu compro. Então, o interesse é diferente da posição.

Apresentador da palestra no 23º Fórum de Compras & Sourcing

A apresentação resumiu o framework de Ury em quatro princípios projetados em slide: separar as pessoas dos problemas ("seja duro nos problemas, mas seja carinhoso com as pessoas"), focar nos interesses e não nas posições, desenvolver opções de ganho mútuo antes de decidir, e usar critérios objetivos, benchmarking, preço de mercado, para tirar o achismo da negociação. Nada disso é novo na literatura de negociação, mas aplicado a compras ele muda a pergunta de abertura: em vez de "quanto você consegue baixar", o comprador pergunta o que o fornecedor precisa proteger para aceitar baixar.

A matriz multivariável: onde mora o valor que o preço não mostra

O núcleo prático da palestra foi uma matriz cruzando importância e flexibilidade de cada variável de negociação, tanto do lado de compras quanto do lado do fornecedor. As variáveis citadas foram preço, prazo de pagamento, prazo de entrega, volume e exclusividade. O exemplo detalhado no palco foi o de exclusividade: ela pode valer pouco para quem compra (baixa importância, alta flexibilidade) e muito para quem vende (alta importância, baixa flexibilidade), porque funciona como selo de "fornecedor homologado" diante do mercado dele. Essa assimetria só aparece quando alguém mapeia o interesse do outro lado, não quando o comprador só olha a própria planilha de saving.

O exercício prático é montar essa matriz, cruzando importância e flexibilidade de cada variável, categoria por categoria, antes de qualquer reunião de negociação. A cobertura não detalha como ficariam os valores de importância e flexibilidade para preço, prazo de pagamento, prazo de entrega e volume especificamente, só o exemplo de exclusividade; por isso, montar a matriz completa para cada insumo é trabalho que cabe ao analista e ao category manager antes da reunião, não um resultado pronto da palestra.

BATNA e ZOPA: o poder real por trás da mesa

Dois conceitos de teoria de negociação completaram o framework apresentado. O primeiro é o BATNA (Best Alternative to a Negotiated Agreement, a melhor alternativa fora do acordo), descrito na palestra como "o conceito mais importante para uma negociação complexa": quem tem alternativa real de outro fornecedor, outro insumo ou outro prazo negocia de posição de força, mesmo sem dizer isso em voz alta. O segundo é o ZOPA (Zone of Possible Agreement), a faixa entre o teto que o comprador aceita pagar e o piso que o fornecedor aceita receber.

Na prática, mapear BATNA e ZOPA antes da reunião responde a duas perguntas que a matriz de variáveis sozinha não responde: até onde dá para empurrar sem quebrar o acordo, e o que acontece se a negociação travar. Sem isso, o comprador faz uma matriz de valor bonita e ainda assim entra na sala sem saber se tem alavanca para usá-la.

Ancoragem e negociação interna: o que a plateia perguntou

No Q&A, uma pergunta sobre ancoragem levou à resposta mais direta da palestra:

Se eu sei o quanto o mercado está pagando e eu quero baixar, aí eu jogo para ancorar.

Apresentador da palestra, em resposta a pergunta da plateia

Outra pergunta, de um coordenador de compras de uma multinacional com 20 mil funcionários, tratou de um problema que o método de fornecedor externo não cobre direto: como negociar internamente a consolidação de volumes entre unidades de negócio diferentes, cada uma com seu próprio interesse. A resposta, segundo o registro da cobertura, apontou para investimento em relacionamento humano como caminho quando os ganhos mútuos entre áreas não são óbvios, ou seja, a mesma lógica de interesse versus posição vale dentro de casa, não só com fornecedor.

O que muda para quem desenha o processo de compras (e o que ainda não foi respondido)

Para quem constrói ou administra ferramentas de e-procurement, módulos de sourcing ou rotinas de S&OP, o recado prático é que sistemas otimizados só por preço deixam de capturar variáveis que o fornecedor valoriza mais, e que poderiam render concessões maiores em troca de menos atrito. Um RFP que só pede "menor preço" não deixa espaço para o fornecedor oferecer prazo de entrega mais curto em troca de exclusividade, por exemplo; a matriz de variáveis só funciona se o processo de cotação for desenhado para capturar mais de um critério por fornecedor.

Vale também marcar onde o método rende menos. Em categorias de commodity pura, com múltiplos fornecedores equivalentes e BATNA forte do lado do comprador, a negociação multivariável tende a ser menos necessária: o preço de mercado já faz o trabalho de ancoragem. O ganho do framework aparece mais em categorias críticas, com poucos fornecedores qualificados ou com dependência técnica, onde o preço sozinho não captura o que está em jogo dos dois lados.

A cobertura da palestra, no entanto, não traz um case de empresa nomeada com resultado quantificado de saving ou valor capturado usando esse método especificamente, o material disponível é o framework apresentado e as perguntas da plateia, não uma medição antes/depois de uma negociação real. Quem quiser aplicar a matriz de variáveis, BATNA e ZOPA no próprio processo de sourcing vai precisar rodar o próprio piloto e medir o resultado, porque esse dado ainda não está publicado.

Fonte: livesupplychain.com.br

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Sobre o autorMarina Queiroz AvelarColunista

Marina Queiroz Avelar acompanha decisões de sourcing e gestão de categorias. Em “Caso de Compras”, mostra como empresas estruturam concorrências, negociam custo total e desenvolvem fornecedores, com números, escolhas e limites de cada caso.

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