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Falta de programador CNC trava ganho de produtividade na indústria brasileira

Enquanto o parque industrial bate recorde de importação de máquinas, a escassez de programadores CNC ameaça virar capacidade ociosa. Para quem decide compras e contratação, o gargalo pede olhar além do pedido de compra da máquina.

Beatriz Nogueira PradoColunista

Publicado em · 7 min de leitura

Este artigo foi escrito por Beatriz Nogueira Prado. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O Brasil está comprando mais máquinas e mais sofisticadas do que nunca, mas boa parte desse investimento corre o risco de ficar parado por falta de quem saiba operá-lo. É o retrato que aparece em reportagem publicada pelo Valor Econômico (06/10/2026) sobre o descompasso entre a modernização do parque industrial e a escassez de programadores CNC (Controle Numérico Computadorizado) e profissionais de CAM (manufatura assistida por computador).

Para quem decide capex em equipamentos, contratação e desenho de cadeia produtiva, três pontos resumem por que isso importa:

  • O investimento em máquina está em recorde, mas o retorno depende de um recurso que está cada vez mais escasso: gente qualificada para programá-la.
  • O Custo Brasil já tem nome: mão de obra qualificada é apontada como um dos principais entraves por 62% dos empresários ouvidos pela CNI.
  • A saída não é só contratar mais gente: é redesenhar o trabalho ao redor da máquina, e a inteligência artificial começa a entrar nessa conta.

O custo real de uma máquina parada

Torno e centro de usinagem modernos só entregam toda a produtividade prometida se alguém traduzir o projeto de engenharia em uma sequência de estratégias, ferramentas, velocidades e trajetórias que a máquina consiga executar sem colidir ou desperdiçar material. Enquanto esse código não está pronto, o equipamento fica parado, e uma máquina de centenas de milhares ou milhões de reais parada é capacidade produtiva que não vira peça, prazo nem faturamento.

O caso da Prime Indústria Aeroespacial, citado na reportagem, dá a dimensão do problema. Durante a estruturação da ferramentaria da empresa, parte da programação era feita linha por linha, direto no painel do CNC, com a máquina parada enquanto o código era escrito. Segundo estudo de caso validado pela própria companhia, a adoção de programação CAM offline (fora da máquina, com o software Mastercam) reduziu atividades de horas para minutos, cortou em até 40% o tempo de corte das peças e eliminou a necessidade de peças de teste, substituídas por simulação.

O Mastercam foi um divisor de águas para consolidar nossa produtividade logo na largada.

Vanderley Faxina, engenharia e produção da Prime Aeroespacial

Para quem avalia fornecedor de equipamento, o caso é um lembrete prático: a ficha técnica da máquina não conta a história toda. O ecossistema de software, treinamento e suporte ao redor dela decide se o capex vira produtividade ou vira ociosidade disfarçada de ativo imobilizado.

O Custo Brasil tem nome: mão de obra qualificada

A escassez não é percepção isolada de uma empresa. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 1.002 empresários, citada na reportagem, mostra que 62% apontam a dificuldade de contratar mão de obra qualificada como um dos principais componentes do Custo Brasil, ao lado de carga tributária e burocracia.

Enquanto isso, o parque de máquinas segue crescendo. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) mostram que o setor fechou 2025 com receita líquida de cerca de R$ 299 bilhões, alta de 7,3% sobre 2024, e que as importações de máquinas e equipamentos somaram US$ 32,2 bilhões, recorde histórico.

O cruzamento desses dois números é o paradoxo que interessa a quem lidera supply chain: o país está comprando a capacidade instalada, mas não na mesma velocidade está formando quem a opera. Isso transforma um recurso que parecia só de RH, mão de obra técnica, em variável de risco de fornecimento tão real quanto falta de insumo ou gargalo logístico.

Produtividade estagnada, e o gargalo ajuda a explicar

O cenário macro reforça a urgência. O Observatório da Produtividade Regis Bonelli, da FGV IBRE, apontou que a produtividade agregada do trabalho cresceu apenas 0,4% em 2025, puxada principalmente pela agropecuária, enquanto indústria e serviços tiveram desempenho mais fraco.

A reportagem traça um paralelo com o próprio agronegócio que ajuda a entender a lógica: estudo da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), também publicado pelo Valor, mostrou que entre 2012 e 2025 a área agrícola brasileira cresceu 43,2%, enquanto o número de trabalhadores por 100 hectares caiu 38,5%. A leitura do levantamento é que a dificuldade de encontrar trabalhador não é só consequência da mecanização: em muitos casos, foi o que acelerou o investimento nela.

SetorO que disparou o investimento em automaçãoEfeito observado
Agronegócio (2012-2025, dado CNA)Escassez de trabalhador ruralÁrea cresceu 43,2%, mão de obra por hectare caiu 38,5%
Indústria (2025, dado CNI/ABIMAQ)Escassez de programador CNC qualificadoImportação recorde de máquinas (US$ 32,2 bi), mas gargalo de operação

A indústria parece repetir o padrão do campo: a falta de gente qualificada não é só um problema de RH, é também um motor de decisão de investimento em automação e em inteligência artificial aplicada ao chão de fábrica.

IA entra para multiplicar, não substituir o programador

Sistemas de CAM com inteligência artificial já conseguem reconhecer características geométricas de uma peça e sugerir ou gerar parte das estratégias de usinagem que antes dependiam inteiramente do programador. Isso não elimina a necessidade de conhecimento técnico, mas muda sua escala: o profissional deixa de gastar tempo com tarefas repetitivas e passa a validar estratégias, resolver exceções e ampliar quantos trabalhos consegue programar.

O maior ganho não está necessariamente em substituir o conhecimento do programador, mas em multiplicar sua capacidade. Existe um conhecimento industrial acumulado durante anos dentro dessas pessoas. Quando a tecnologia assume parte do trabalho repetitivo, esse profissional pode usar sua experiência onde ela realmente gera valor.

Camila Sarantopoulos, CEO da TECC Indústria Inteligente

O relatório State of AI in the Enterprise 2026, da Deloitte, mostra a velocidade dessa transição no Brasil: 58% dos executivos brasileiros pesquisados afirmam que suas organizações já usam algum nível de IA física, categoria que inclui manufatura, logística e operações. Mas a maturidade ainda é baixa: 47% classificam a adoção como mínima e apenas 1% como avançada. A expectativa da consultoria é que algum tipo de IA física esteja presente em 82% das organizações brasileiras pesquisadas nos próximos dois anos, um salto que depende de execução e não está garantido.

O que isso pede de quem decide compra e contratação

Para CSCOs, CPOs e diretores de operação, o recado prático desdobra-se em decisões concretas:

  1. Reavalie o critério de compra da máquina. Preço e especificação técnica não bastam: peça ao fornecedor o ecossistema de software CAM, suporte e treinamento junto com a cotação, porque é isso que determina se o equipamento roda ou fica parado esperando programação.
  2. Trate escassez de programador CNC como risco de fornecimento. Da mesma forma que se mapeia risco de fornecedor único de insumo, mapeie a dependência de poucos profissionais capazes de programar os ativos críticos da planta.
  3. Decida entre formar e recrutar com os dois pés no chão. Recrutar programador CNC sênior num mercado apertado custa caro e demora; capacitar quem já conhece o processo da empresa para operar ferramentas CAM assistidas por IA costuma ser o caminho mais rápido de escalar capacidade.
  4. Trate governança de dados como parte do projeto, não como etapa posterior. Projetos de engenharia, modelos CAD e estratégias de usinagem são propriedade intelectual sensível; antes de levar esse material para uma ferramenta de IA, entenda política de retenção do fornecedor e se os dados do cliente são usados para treinar o modelo.

Sarantopoulos reconhece que a resistência inicial é natural. Segundo ela, o receio das indústrias em relação à confidencialidade dos projetos ao adotar IA é legítimo, mas tende a seguir a mesma curva de adoção vista com e-mail e computação em nuvem: a desconfiança inicial cede à medida que segurança, governança e regras de uso amadurecem.

O ponto em aberto é o ritmo dessa maturidade. A pesquisa CNI de 2026 mostra que 61% das indústrias brasileiras fizeram alguma atividade de inovação nos três anos anteriores, e que 69% delas miraram melhoria de processo produtivo, com aumento de produtividade citado por 38% como principal resultado. Isso mostra apetite, mas não resolve, sozinho, o problema estrutural: enquanto a formação técnica não acompanhar o ritmo de importação de máquinas, cada torno novo na linha carrega, junto com o ganho de capacidade, um risco de ociosidade que começa na falta de quem sabe programá-lo.

Fonte: Valor Econômico

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Sobre o autorBeatriz Nogueira PradoColunista

Beatriz Nogueira Prado conecta mercado, regulação e indicadores às decisões da cadeia. Editora de inteligência e autora de “Abertura do Dia”, destaca o que mudou, quem é afetado e qual ação merece prioridade.

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