Live University · Portal do Supply ChainLive University · Portal do Supply Chain
Ao vivo23º Fórum de Compras & SourcingAcompanhe

Stellantis admite risco de fechar fábricas na Argentina e cobra proteção à indústria no Brasil

Em entrevista à Exame, o presidente da Stellantis na América do Sul disse que as duas fábricas argentinas podem fechar e pediu ao governo brasileiro um modelo claro de proteção tarifária. O caso expõe o risco de concentrar produção numa cadeia regional sem previsibilidade regulatória.

Beatriz Nogueira PradoColunista

Publicado em · 6 min de leitura

Este artigo foi escrito por Beatriz Nogueira Prado. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul, admitiu à Exame, em entrevista publicada em 6 de outubro de 2026, que a companhia pode fechar uma ou as duas fábricas que mantém na Argentina. O executivo também cobrou do governo brasileiro um modelo definido de proteção à indústria automotiva local diante do avanço das marcas chinesas.

Em resumo:

  • A Stellantis tem duas plantas na Argentina e não descarta fechar nenhuma, uma ou as duas, dependendo de mercado, regras e competitividade.
  • O custo de mão de obra argentino é o dobro do brasileiro, e o Brasil responde por 65% do volume de vendas da região.
  • Zola pede "previsibilidade" regulatória do governo brasileiro antes de qualquer decisão industrial, enquanto a penetração chinesa saltou de 9% para mais de 25% do mercado brasileiro em pouco mais de um ano.

Por que uma fábrica muda de país do dia para a noite

A declaração de Zola não é uma hipótese distante: é o retrato de uma decisão de alocação de capital sendo recalculada em tempo real. Segundo ele, a Peugeot tinha cerca de 9% de participação no mercado argentino no ano passado e hoje tem perto de 5%, por causa da abertura do mercado argentino à importação e do avanço chinês. A queda de demanda já é suficiente para justificar ajustes na fábrica de Palomar, de onde vinha a maior parte do volume da marca.

Mas o fator que separa discurso de decisão concreta é o custo. Zola afirmou que a mão de obra argentina custa, "literalmente", o dobro da brasileira. Some isso à concentração: o Brasil pesa 65% do volume regional da Stellantis, o que torna qualquer fábrica argentina dependente, em última instância, do que acontece no mercado brasileiro. Para quem decide sobre footprint industrial, o caso ilustra um ponto que vale para qualquer cadeia regional, não só automotiva: quando um nó concentra a maior parte do volume, ele vira também o fiador da viabilidade dos demais.

A equação que todo diretor de supply chain reconhece

A fala de Zola resume, em poucas frases, o dilema clássico de footprint versus política comercial: sem regra clara, não há como calcular o retorno do investimento em planta própria.

FatorArgentinaBrasil
Participação de mercado da marca mais afetada (Peugeot)Caiu de ~9% para ~5% em 2025-2026Stellantis manteve liderança, com 25,6% no 2º tri
Custo de mão de obraO dobro do brasileiro, segundo ZolaReferência de custo mais baixo na região
Peso no volume regional da StellantisFábricas dependem do mercado interno + exportação65% do volume regional
Avanço de importados chinesesAcelerado pela abertura do mercado no ano passadoDe 9% (2025) para mais de 25% no último mês (2026)

A tabela deixa claro por que a decisão não é binária. Fechar uma planta argentina não resolve o problema de competitividade regional se o Brasil não tiver uma regra tarifária estável para conter a mesma pressão chinesa que já corroeu a participação da Peugeot do outro lado da fronteira.

O nó tarifário: CKD, SKD e o limite de 35%

Zola foi direto sobre o que torna a montagem local viável ou não: hoje, segundo ele, uma alíquota de 35% sobre kits CKD (completamente desmontados) já é "pouco competitiva" diante do que se pratica em outros mercados. Para efeito de comparação, ele citou que os Estados Unidos aplicam 100% de tarifa para barrar a entrada de veículos chineses, e a União Europeia pode chegar a 70%, dependendo das regras.

Se não houver uma taxa alta, o modelo SKD e CKD é mais interessante, sem dúvida alguma. E se a taxa for a de hoje, isso nos dará a previsibilidade de que precisamos, porque aí é melhor produzir por meio de kits que vão ser montados na China e trazidos para cá.

Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul

A frase é um alerta direto para quem pensa em nacionalização de cadeia produtiva: a decisão entre produzir localmente ou importar montado depende inteiramente de uma variável que a empresa não controla, a política tarifária do governo. Sem uma definição, o incentivo econômico aponta para menos produção local, não mais, porque a montagem fora do país já compensa pelo diferencial de custo de mão de obra e logística de kits.

O que Zola pede ao governo brasileiro, e por que isso interessa a qualquer cadeia

O executivo foi enfático ao dizer que a palavra-chave do setor é previsibilidade, independentemente de qual partido governe o Brasil.

Enquanto não tivermos previsibilidade sobre o que vai acontecer no mercado brasileiro, é difícil tomar com segurança qualquer decisão industrial na América do Sul.

Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul

Para quem responde por custo total e risco de cadeia em qualquer setor, o recado é o mesmo que motiva discussões sobre reforma tributária, novas regras de conteúdo local ou mudanças de regime aduaneiro: decisão de investimento de capital intensivo (fábrica, linha de produção, contrato de longo prazo com fornecedor) exige um horizonte regulatório estável de vários anos. Zola citou o precedente do Inovar-Auto, programa que, ao impor exigências de produção local, levou BMW, Jaguar Land Rover e Mercedes-Benz a instalar ou retomar fábricas no Brasil. A lição histórica é que regra clara, mesmo que restritiva, atrai capital produtivo; regra ambígua empurra a cadeia para a importação.

A aposta paralela: diversificar fornecimento via parcerias chinesas

Enquanto pede proteção tarifária de um lado, a Stellantis já se movimenta para se cobrir do outro. O grupo detém 51% da divisão internacional da chinesa Leapmotor desde o ano passado e amplia a parceria global com a Dongfeng, que administra seis marcas chinesas. Zola disse que a empresa pode se associar a "mais uma, mais duas ou mais dez" marcas chinesas, dependendo da necessidade de competitividade regional, e que já existe uma planta da Dongfeng na China produzindo para a Stellantis.

Esse movimento é, na prática, uma estratégia de hedge de cadeia: se o Brasil não garantir proteção suficiente para sustentar produção 100% local, a companhia já tem um canal de fornecimento alternativo via kits chineses, exatamente o modelo CKD/SKD que Zola diz não preferir, mas que mantém como opção viável caso a regra tarifária não mude.

O que ainda está em aberto

A entrevista não traz uma data para a decisão sobre as fábricas argentinas, nem detalha qual modelo de proteção o governo brasileiro está desenhando. Zola também não especificou o prazo da "novidade" que prometeu anunciar ainda em 2026, nem deu números de como a margem regional, que caiu de cerca de 15% para 10%, se recupera caso as regras mudem. Para quem acompanha risco de cadeia automotiva ou de qualquer setor industrial dependente de política tarifária, o caso Stellantis funciona como termômetro: a decisão sobre manter, migrar ou fechar capacidade produtiva na América do Sul está, neste momento, mais nas mãos do governo do que da própria montadora.

Fonte: Exame

Espaço de oferecimento disponível em Supply Chain. — Oferecimento disponível para Supply Chain
Sobre o autorBeatriz Nogueira PradoColunista

Beatriz Nogueira Prado conecta mercado, regulação e indicadores às decisões da cadeia. Editora de inteligência e autora de “Abertura do Dia”, destaca o que mudou, quem é afetado e qual ação merece prioridade.

Leia também

Mais de Beatriz Nogueira Prado

Boletim Portal do Supply Chain

Boletins do Supply Chain

Escolha a sua área e receba toda semana o que mudou, os casos reais e as tendências que importam para o seu trabalho, em poucos minutos de leitura. Com número, fonte e o que fazer a respeito.

Como você lê (opcional)