Exportação de carne bovina para a China cai 93,5% em setembro após cota ser esgotada
Cota de importação sob salvaguarda chinesa esgotou e sobretaxa de 55% derrubou embarques de carne bovina em 93,5% em setembro, segundo o governo. Estados Unidos absorveram parte do volume, mas não compensam o peso do mercado chinês.
Publicado em · 5 min de leitura
Este artigo foi escrito por Redação Portal do Supply Chain. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.
A exportação brasileira de carne bovina para a China recuou 93,5% em setembro de 2026 na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo Herlon Brandão, diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do governo federal. A declaração, divulgada pelo Valor Econômico em 6 de outubro, explica por que as exportações totais do Brasil para o mercado chinês caíram 7,6% no mês: a carne bovina puxou a queda sozinha, mesmo com o crescimento de outros produtos na pauta.
Para quem planeja embarques de proteína animal, contrata frete internacional ou administra exposição cambial ligada ao agronegócio, o recado é direto: o principal comprador de carne bovina do Brasil fechou a torneira no meio do ano-safra, e a resposta do mercado já está em curso, com Estados Unidos ganhando peso como destino alternativo.
Por que a cota chinesa esgotou
A causa da queda é mecânica, não conjuntural. Como o próprio Valor já havia mostrado, o volume de carne bovina brasileira importado pela China sob as medidas de salvaguarda atingiu 100% da cota prevista para 2026, de 1,106 milhão de toneladas. Esgotada a cota, qualquer remessa adicional que entre no país asiático neste ano passa a pagar uma tarifa extracota de 55%, o que torna o embarque pouco competitivo e freia novas saídas.
O mecanismo de salvaguarda funciona como um gatilho automático: dentro da cota, a carne entra com tarifa normal; fora dela, a sobretaxa de 55% se aplica a qualquer volume excedente, independentemente de quem exporta. Isso significa que o problema não é specific a um frigorífico ou a uma rota logística, mas a um teto agregado que qualquer exportador brasileiro de carne bovina para a China compartilha a partir do momento em que o limite é atingido.
O peso da China e a resposta dos Estados Unidos
Brandão ponderou que a queda das vendas de carne para a China foi proporcionalmente maior do que a retração das exportações brasileiras totais para o país. O crescimento de outros produtos na pauta ajudou a compensar parte da perda, mas não o suficiente, dado o peso histórico do mercado chinês: no ano passado, a China respondeu por 53% de toda a exportação brasileira de carne bovina.
Parte do volume que deixou de ir para a China está sendo redirecionada, sobretudo para os Estados Unidos. As exportações brasileiras de carne bovina para o mercado americano cresceram 524,3% em setembro na comparação com o mesmo mês de 2025. As exportações totais do Brasil para os Estados Unidos também subiram, 31,9% no mês, mesmo com o tarifaço americano em vigor.
O motivo é que carne bovina e café ficaram de fora das sobretaxas aplicadas pelos Estados Unidos, que atingiram 23% da pauta exportadora brasileira. Segundo Brandão, houve até um movimento inverso para a carne.
Tivemos um movimento contrário este ano, que foi a retirada das tarifas de carne, então atualmente não tem tarifa de importação, mesmo a que vigia anterior ao tarifaço. E esse foi o produto que mais cresceu.
Herlon Brandão, diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior
O café seguiu o mesmo padrão: as exportações brasileiras do produto para os Estados Unidos avançaram 108% em setembro, outro item relevante da pauta que não entrou no tarifaço americano.
O que muda na prática para quem exporta e contrata frete
Para exportadores de proteína animal, o cenário cria dois movimentos simultâneos que afetam planejamento logístico e contratual:
- Reequilíbrio de rotas: volume que seguiria para portos chineses (Qingdao, Xangai) precisa ser redirecionado para a costa americana, o que altera prazos de trânsito, disponibilidade de contêineres refrigerados e negociação de frete marítimo com transportadoras.
- Risco de concentração cambial: com os Estados Unidos ganhando peso relativo na pauta de carne bovina, a exposição ao dólar aumenta em relação ao yuan, mudando o perfil de hedge cambial que frigoríficos e tradings vinham operando.
- Janela de cota em 2027: como a cota chinesa é anual, o esgotamento em 2026 não impede novos embarques dentro do limite a partir de janeiro, mas a sobretaxa de 55% permanece válida para qualquer volume que ultrapasse o teto do próximo ciclo, caso ele não seja renegociado.
Ainda não está claro, pela fonte, se o governo brasileiro negocia ampliação da cota de salvaguarda para 2027 nem se os Estados Unidos sustentam o ritmo de crescimento de 524,3% ao longo do ano, dado que setembro é um único mês de comparação.
Projeção de superávit cai de US$ 90 bi para US$ 84 bi
No mesmo evento, Brandão revisou a projeção de superávit da balança comercial brasileira para 2026, de US$ 90 bilhões para US$ 84 bilhões. A revisão não decorre do episódio da carne bovina, e sim da acomodação dos preços internacionais de commodities depois da alta observada no primeiro semestre.
A estimativa anterior, feita em meados do ano, incorporava a trajetória de alta do petróleo após o conflito entre Irã e Estados Unidos no início de 2026, que também pressionou para cima os preços de produtos relacionados à commodity. Esse movimento acelerou tanto exportações quanto importações e entrou no modelo de projeção usado pelo governo. Nos meses seguintes, a alta perdeu força, e as taxas de crescimento do comércio exterior seguiram relevantes, mas abaixo do que havia sido projetado.
Mesmo revisado para baixo, o superávit de US$ 84 bilhões projetado para 2026 seria o segundo maior da série histórica, atrás apenas do resultado de 2023, de US$ 98,9 bilhões. Para quem planeja operações de câmbio atreladas ao fluxo de comércio exterior, a leitura é que o ano segue com superávit robusto, mas a margem para surpresas de preço no segundo semestre diminuiu em relação ao cenário desenhado em junho.
Fonte: Valor Econômico
A Redação do Portal do Supply Chain acompanha os fatos que afetam Procurement, Planejamento, Logística e Supply Chain. Notícias e análises priorizam contexto, impacto operacional e transparência sobre fontes e correções.
Leia também
- NOTÍCIA
Fornecedor passageiro ou copiloto? A fórmula para formar compradores de alta performance
No 23º Fórum de Compras & Sourcing, painel com BH Airport e Vibra Energia propõe classificar fornecedores por maturidade de parceria, não só por criticidade, e expõe o saving que a maioria dos relatórios de compras não enxerga.
- NOTÍCIA
IA sem aprovação avança em compras e logística, mostra pesquisa da SAP
Pesquisa da SAP com a Oxford Economics mostra que 82% das empresas brasileiras têm funcionários usando IA sem aprovação formal, mas só 18% integraram a tecnologia aos processos. Para quem decide sourcing, estoque e contratos, o vão do meio é onde mora o risco.
- NOTÍCIA
Stellantis admite risco de fechar fábricas na Argentina e cobra proteção à indústria no Brasil
Em entrevista à Exame, o presidente da Stellantis na América do Sul disse que as duas fábricas argentinas podem fechar e pediu ao governo brasileiro um modelo claro de proteção tarifária. O caso expõe o risco de concentrar produção numa cadeia regional sem previsibilidade regulatória.
- NOTÍCIA
Importação de diesel cai 26,7% em setembro e Brasil aumenta dependência do combustível americano
Dados da Secex mostram queda de 26,7% na importação de diesel em setembro de 2026 e troca de fornecedor: menos Rússia, mais Estados Unidos. Para quem compra frete e administra frota, o aperto no mercado externo aumenta o risco de volatilidade no preço do combustível.

