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O paradoxo do saving: por que bater a meta pode não significar economia real

No 23º Fórum de Compras & Sourcing, um caso real mostrou como o indicador mais usado em compras pode premiar decisões que pioram o caixa da empresa. Veja a diferença entre saving e economia real, com exemplos ilustrativos do mecanismo descrito na palestra.

Otávio Lacerda PimentelColunista

Publicado em · 6 min de leitura

Este artigo foi escrito por Otávio Lacerda Pimentel. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

O que a palestra do Fórum de Compras & Sourcing 2026 colocou em xeque

No 23º Fórum de Compras & Sourcing, na Arena Procurement Ecosystem, uma palestra chamada "Como construir uma operação de procurement mais eficiente, ágil e preparada para o futuro" trouxe um caso que todo comprador deveria levar para a próxima reunião de resultado. Quem apresentou tem 30 anos de carreira: formação em engenharia, migração para compras em 2000, mestrado em Controladoria, Finanças e Tecnologias de Gestão, atuação como pesquisadora do CIEC e docência em programas como o Breve II e a pós-graduação em Compras Estratégicas do Einstein.

O estudo de caso veio da Xara, refinaria multi-óleos que até julho de 2026 operava com a marca Agropalma e atende as indústrias alimentícia e de cosméticos. A pergunta que ela repetiu na abertura e no fechamento da fala resume o problema:

Se todos em compras cumprem perfeitamente os KPIs atuais, os indicadores pelos quais os compradores são medidos, o resultado da empresa melhora?

A resposta intuitiva é sim. A fonte da matéria (livesupplychain.com.br) registrou o contra-argumento dela com um exemplo que todo gestor de categoria já viveu de algum jeito.

Saving: o que o termo realmente mede

"Saving" é o termo que o mercado de compras usa, em inglês mesmo, para a redução de preço ou custo conquistada numa negociação frente a uma referência (o preço anterior, uma tabela, um orçamento). A conta clássica é simples: volume comprado multiplicado pela diferença entre o preço de referência e o preço negociado.

O problema não está na fórmula. Está no que ela deixa de fora: de onde veio aquele desconto. Um preço mais baixo pode ter sido conquistado às custas de outra variável do contrato, e é aí que o indicador de saving, sozinho, vira cego para o resultado financeiro real da empresa.

Na palestra, a fala que descreve esse mecanismo foi direta:

Eu sou medida por saving e para atingir a minha meta de saving, eu reduzo o prazo de pagamento na minha negociação. Ou para atingir a minha meta de saving, eu aceito comprar um volume maior do que eu gostaria, ou do que eu precisaria, para conseguir um desconto.

Onde a conta engana: dois exemplos numéricos

A palestra e a cobertura da transmissão descrevem o mecanismo em termos gerais, sem divulgar valores específicos. Os números abaixo não vêm da Xara nem da apresentação: são exemplos hipotéticos, construídos para esta reportagem, com o único objetivo de tornar tangível o tipo de troca que a palestrante descreveu em palavras.

Exemplo 1: desconto por antecipar pagamento (hipotético)

Imagine uma compra mensal de R$ 100.000, com prazo de pagamento normal de 60 dias. O fornecedor oferece 2% de desconto se a empresa pagar à vista.

  1. Saving registrado no sistema: 2% de R$ 100.000 = R$ 2.000 por mês.
  2. Custo de capital da empresa (o quanto custa antecipar esse dinheiro, via linha de crédito ou capital de giro próprio): 3% ao mês.
  3. Custo financeiro de antecipar 60 dias de pagamento: R$ 100.000 × 3% × 2 meses = R$ 6.000.
  4. Resultado líquido real: R$ 2.000 de saving menos R$ 6.000 de custo financeiro = perda de R$ 4.000.

Neste cenário ilustrativo, o comprador bateria a meta. O caixa da empresa ficaria pior.

Exemplo 2: desconto por volume maior (hipotético)

Imagine uma empresa que precisa de 1.000 unidades por mês a R$ 10 cada. O fornecedor oferece 5% de desconto (R$ 9,50) se a compra for de 1.200 unidades, 20% acima da necessidade real.

  • Saving calculado sobre o volume necessário: 1.000 × R$ 0,50 = R$ 500.
  • As 200 unidades extras (R$ 1.900 de valor) ficariam paradas em estoque até serem consumidas.
  • Se o custo de carregar estoque (armazenagem, seguro, capital parado) for de 2% ao mês e o excedente demorar três meses para ser consumido, o custo de carregamento seria R$ 1.900 × 2% × 3 = R$ 114.

Nesse segundo cenário o saldo ainda seria positivo, mas por pouco, e somaria de vez se o prazo de consumo do excedente fosse maior, se a demanda mudasse ou se o produto tivesse validade curta. O ponto da palestra não é que volume maior é sempre ruim: é que o indicador de saving, do jeito que normalmente é calculado, não enxerga esse risco.

TCO: a métrica que falta no painel

O conceito que resolve esse ponto cego é o TCO, Total Cost of Ownership, ou custo total de propriedade. A ideia é simples: o preço pago ao fornecedor é só uma parte do custo de uma compra. Prazo de pagamento, volume mínimo, custo de estoque, frete, retrabalho e risco de obsolescência também são custo, só que custo que não aparece na nota fiscal.

O que o saving medeO que o TCO acrescenta
Diferença de preço unitárioCusto de capital do prazo de pagamento
Volume negociadoCusto de carregar estoque excedente
Desconto fechado no pedidoCusto de obsolescência, frete, retrabalho

O motivo de times de procurement adotarem TCO em vez de olhar só preço é justamente blindar a negociação contra esse tipo de troca disfarçada de economia.

Como montar um indicador de saving que não mente

A saída prática, a partir do que a palestra descreve, não é abandonar o saving como indicador: é parar de medi-lo sozinho. Três ajustes dão conta da maior parte do problema:

  1. Cruzar saving com DPO (Days Payable Outstanding, prazo médio de pagamento a fornecedores): se o DPO cai no mesmo período em que o saving sobe, o time financeiro precisa saber antes de comemorar a meta.
  2. Cruzar saving com giro de estoque: um saving que aumenta o estoque parado precisa ser líquido do custo de carregamento daquele excedente, não bruto.
  3. Calcular um saving ajustado: saving bruto menos custo financeiro da mudança de prazo menos custo de carregamento do volume excedente. É essa conta, e não a do pedido de compra, que deveria chegar ao CFO.

Nenhum desses três ajustes exige sistema novo. Exige que a área de compras compartilhe a taxa de custo de capital da empresa (normalmente a tesouraria já calcula) e que o ERP cruze data de pagamento e posição de estoque com o registro de saving por categoria.

Quando saving sozinho ainda faz sentido

Nem toda negociação precisa desse nível de conta. Para itens de ciclo curto, baixo valor e estoque mínimo (material de escritório, por exemplo), o saving simples continua sendo um proxy razoável do resultado. O risco descrito na palestra cresce justamente onde o valor por transação é alto, o prazo de pagamento é longo ou o volume negociado é grande em relação ao consumo real, caso típico de matéria-prima industrial como os óleos que a Xara compra e revende processados.

Como isso aparece no seu dia a dia

Se a sua meta de saving é calculada sem olhar prazo de pagamento negociado nem variação de estoque, você está correndo o mesmo risco descrito na palestra: bater a meta e, sem saber, tirar dinheiro do caixa da empresa. Antes de fechar a próxima negociação com desconto por volume ou por antecipação de pagamento, vale rodar a conta de custo de capital e de carregamento de estoque antes de registrar o saving como ganho. No glossário de compras do portal você encontra os verbetes de TCO, capital de giro e saving com a mesma régua usada aqui.

Fonte: livesupplychain.com.br

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Sobre o autorOtávio Lacerda PimentelColunista

Otávio Lacerda Pimentel traduz contratos, compliance e risco de fornecedores para a rotina de Compras. Em “Compras Explicada”, apresenta conceitos, alertas e exemplos práticos para quem precisa decidir com segurança.

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