Live University · Portal do Supply ChainLive University · Portal do Supply Chain

Stellantis admite risco de fechar fábricas na Argentina e cobra proteção à indústria no Brasil

O presidente da Stellantis na América do Sul disse à Exame que a empresa pode fechar uma ou as duas fábricas que mantém na Argentina e cobrou do governo brasileiro uma regra tarifária estável antes de qualquer decisão industrial.

Marina Queiroz AvelarColunista

Publicado em · 6 min de leitura

Este artigo foi escrito por Marina Queiroz Avelar. Conteúdo produzido por agente de IA do Portal do Supply Chain. Saiba como produzimos no expediente.

Imagem gerada por IA

Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul, disse à Exame, em entrevista publicada em 6 de outubro de 2026, que a companhia não descarta fechar uma ou as duas fábricas que opera na Argentina. Na mesma entrevista, ele cobrou do governo brasileiro uma regra tarifária estável para a indústria automotiva, num momento em que a penetração de marcas chinesas no Brasil saltou de 9% para mais de 25% em pouco mais de um ano.

Para quem responde por custo total e risco de cadeia, o caso interessa menos pelo que pode acontecer na Argentina e mais pelo que ele revela sobre como uma montadora global recalcula footprint industrial quando câmbio, tarifa e concorrência mudam ao mesmo tempo. É um roteiro que qualquer liderança de supply chain no Brasil pode ter que seguir, só que com outro nome de empresa.

O problema: uma planta vira inviável antes de qualquer decisão formal

A Peugeot, marca do grupo Stellantis, tinha cerca de 9% de participação no mercado argentino no ano passado e hoje tem perto de 5%, segundo Zola. A queda veio da abertura do mercado argentino à importação, somada ao avanço chinês, o mesmo tipo de pressão que já atinge o Brasil. A fábrica de Palomar, principal origem do volume da marca na Argentina, sente essa queda de demanda direto na linha.

O segundo fator é estrutural, não conjuntural: a mão de obra argentina custa, segundo Zola, "literalmente" o dobro da brasileira. Some isso à dependência regional: o Brasil responde por 65% do volume de vendas da Stellantis na América do Sul, o que torna qualquer planta argentina refém, em última instância, da saúde do mercado brasileiro. Quando um nó concentra a maior parte do volume, ele também passa a ser o fiador da viabilidade dos demais, incluindo aqueles fora de suas fronteiras.

A decisão que a Stellantis já tomou, mesmo sem fechar nada ainda

Enquanto pressiona o governo brasileiro por regra clara, a Stellantis já se posicionou para não depender dela. O grupo detém 51% da divisão internacional da chinesa Leapmotor desde o ano passado e amplia a parceria com a Dongfeng, que administra seis marcas chinesas, incluindo uma planta que já produz para a Stellantis na China. Zola afirmou que a companhia pode se associar a "mais uma, mais duas ou mais dez" marcas chinesas, conforme a necessidade de competitividade regional.

Esse movimento é, na prática, um hedge de fornecimento: se o Brasil não garantir condição para produção 100% local, a Stellantis já tem canal alternativo via kits CKD e SKD montados fora do país. O próprio executivo deixou isso explícito ao comentar a alíquota de 35% sobre kits desmontados, hoje vigente no Brasil:

Se não houver uma taxa alta, o modelo SKD e CKD é mais interessante, sem dúvida alguma. E se a taxa for a de hoje, isso nos dará a previsibilidade de que precisamos, porque aí é melhor produzir por meio de kits que vão ser montados na China e trazidos para cá.

Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul

Para efeito de comparação, Zola citou que os Estados Unidos aplicam 100% de tarifa sobre veículos chineses e que a União Europeia pode chegar a 70%, dependendo da regra. Contra esse pano de fundo, os 35% brasileiros deixam de parecer proteção e passam a ser, na leitura do executivo, um convite a importar montado em vez de produzir local.

O resultado até agora: nenhuma fábrica fechou, mas a margem já encolheu

A entrevista não traz data para o fechamento de nenhuma planta argentina, nem detalha o desenho da proteção que o governo brasileiro estuda. O que já é mensurável é o efeito sobre margem: segundo a reportagem, a margem regional da Stellantis caiu de cerca de 15% para 10% no período recente, sem que Zola apontasse quando ou como ela se recupera.

FatorArgentinaBrasil
Participação da marca mais afetada (Peugeot)Caiu de ~9% para ~5% em 2025-2026Stellantis manteve liderança, com 25,6% no 2º tri
Custo de mão de obraO dobro do brasileiro, segundo ZolaReferência de custo mais baixo na região
Peso no volume regional da StellantisDepende do mercado interno e exportação65% do volume regional
Avanço de importados chinesesAcelerado pela abertura do mercado no ano passadoDe 9% (2025) para mais de 25% no último mês (2026)

A tabela mostra por que fechar uma planta argentina não resolve sozinho o problema de competitividade: a mesma pressão chinesa que corroeu a participação da Peugeot na Argentina já avança sobre o Brasil, só que numa velocidade ainda maior.

O que fica em aberto

Zola prometeu um anúncio ainda em 2026, sem especificar prazo nem conteúdo. Também não detalhou que modelo de proteção o governo brasileiro está desenhando, nem se vai se inspirar no precedente que ele mesmo citou: o Inovar-Auto, programa que, ao exigir produção local, levou BMW, Jaguar Land Rover e Mercedes-Benz a instalar ou retomar fábricas no Brasil. A lição histórica que ele resume é direta:

Enquanto não tivermos previsibilidade sobre o que vai acontecer no mercado brasileiro, é difícil tomar com segurança qualquer decisão industrial na América do Sul.

Herlander Zola, presidente da Stellantis na América do Sul

O que muda para quem planeja estoque e fornecimento no Brasil

O caso Stellantis não é sobre carros: é sobre o que acontece quando câmbio, tarifa e concorrência externa mudam mais rápido do que a regulação consegue responder. Isso vale para qualquer cadeia regional com fornecedor concentrado em um único país ou planta.

Para quem decide alocação de capacidade, fornecedor e estoque de segurança, o episódio sugere revisar três frentes antes que a pressão chegue ao Brasil na mesma intensidade:

  • Dependência de fornecedor único por país: mapear se algum componente crítico vem de uma única planta estrangeira sujeita a câmbio instável ou a mudança abrupta de regra de importação no país de origem.
  • Estoque de segurança como seguro contra decisão política, não só contra ruptura logística: quando a viabilidade de uma fábrica depende de uma tarifa que pode mudar por decreto, o buffer de estoque vira hedge contra decisão regulatória, não só contra atraso de navio.
  • Cenários de tarifa no planejamento de sourcing: simular o custo total sob pelo menos duas hipóteses de alíquota, como a própria Stellantis fez ao comparar os 35% brasileiros com os 100% americanos e os até 70% europeus, antes de fechar contrato de longo prazo com fornecedor local.

O alerta de Zola não é só para a indústria automotiva. É um lembrete de que qualquer empresa que opere fábrica ou contrato de fornecimento de longo prazo na América do Sul está, hoje, tão exposta a uma canetada tarifária quanto a uma crise cambial, e que planejar para as duas ao mesmo tempo deixou de ser exagero.

Fonte: livesupplychain.com.br

Espaço de oferecimento disponível em Supply Chain. — Oferecimento disponível para Supply Chain
Sobre o autorMarina Queiroz AvelarColunista

Marina Queiroz Avelar acompanha decisões de sourcing e gestão de categorias. Em “Caso de Compras”, mostra como empresas estruturam concorrências, negociam custo total e desenvolvem fornecedores, com números, escolhas e limites de cada caso.

Leia também

Mais de Marina Queiroz Avelar

Boletim Portal do Supply Chain

Boletins do Supply Chain

Escolha a sua área e receba toda semana o que mudou, os casos reais e as tendências que importam para o seu trabalho, em poucos minutos de leitura. Com número, fonte e o que fazer a respeito.

O que você quer receber (um ou mais)